Área que estuda o desenvolvimento do ser humano em todos os seus aspectos: físico-motor, intelectual, afetivo-emocional e social - desde o nascimento até a idade adulta, isto é, a idade em que todos estes aspectos atingem o seu mais completo grau de maturidade e estabilidade.
Existem várias teorias do desenvolvimento humano em Psicologia. Elas foram construídas a partir de observações, pesquisas com grupos de indivíduos em diferentes faixas etárias ou em diferentes culturas, estudos de casos clínicos, acompanhamento de indivíduos desde o nascimento até a idade adulta. Dentre essas teorias, destaca-se a de Jean Piaget (1896-1980), psicólogo e biólogo suíço, pela sua vasta produção de pesquisas, pelo rigor científico de sua produção teórica e pelas implicações práticas de sua teoria, principalmente no campo da Educação.
O desenvolvimento humano
Refere-se ao desenvolvimento mental e ao crescimento orgânico. O desenvolvimento mental é uma construção contínua, que se caracteriza pelo aparecimento gradativo de estruturas mentais. Estas são formas de organização da atividade mental que se vão aperfeiçoando e se solidificando até o momento em que todas elas, estando plenamente desenvolvidas, caracterizarão um estado de equilíbrio superior quanto aos aspectos da inteligência, vida afetiva e relações sociais.
Algumas dessas estruturas mentais permanecem ao longo de toda a vida. Por exemplo, a motivação está sempre presente como desencadeadora da ação, quer seja por necessidades fisiológicas, quer seja por necessidades afetivas ou intelectuais. Essas estruturas mentais que permanecem garantem a continuidade do desenvolvimento. Outras estruturas são substituídas a cada nova fase da vida do indivíduo. Por exemplo, a moral da obediência da criança pequena é substituída pela autonomia moral do adolescente ou, outro exemplo, a noção de que o objeto existe só quando a criança o vê (antes do 2 anos) é substituída posteriormente pela capacidade de atribuir ao objeto sua conservação, mesmo quando ele não está presente no seu campo visual.
Estudar o desenvolvimento humano significa conhecer as características comuns de uma faixa etária, permitindo-nos reconhecer as individualidades, o que nos torna mais aptos para a observação e interpretação dos comportamentos. Estudos e pesquisas de Piaget demonstraram que existem formas de perceber, compreender e se comportar diante do mundo, próprias de cada faixa etária, ou seja, existe uma assimilação progressiva do meio ambiente, que implica uma acomodação das estruturas mentais a este novo dado do mundo exterior.
Todos esses aspectos levantados têm importância para a Educação. Planejar o que e como ensinar implica saber quem é o educando. Exemplo: a linguagem que usamos com uma criança de 6 anos não é a mesma que empregamos com uma jovem de 12 anos.
Os fatores que influenciam o desenvolvimento humano
Estudar o desenvolvimento humano significa descobrir que ele é determinado pela interação de vários fatores. A saber:
Hereditariedade - a carga genética estabelece o potencial do indivíduo, que pode ou não desenvolver-se. Existem pesquisas que comprovam os aspectos genéticos da inteligência. No entanto, a inteligência pode desenvolver-se aquém ou além do seu potencial, dependendo das condições do meio que encontra.
Crescimento orgânico - refere-se ao aspecto físico. O aumento de altura e a estabilização do esqueleto permitem ao indivíduo comportamentos e um domínio do mundo que antes não existiam. Exemplo: as possibilidades de descobertas de uma criança, quando começa a engatinhar e depois a andar, em relação a quando esta criança estava no berço com alguns dias de vida.
Maturação neurofisiológica - é o que torna possível determinado padrão de comportamento. A alfabetização das crianças, por exemplo, depende dessa maturação. Para segurar o lápis e manejá-lo como nós, é necessário um desenvolvimento neurológico que a criança de 2 anos não tem. Observe como ela segura o lápis.
Meio - o conjunto de influências e estimulações ambientais altera os padrões de comportamento do indivíduo. Exemplo: se a estimulação verbal for muito intensa, uma criança de 3 anos pode ter um repertório verbal muito maior do que a média das crianças de sua idade., mas, ao mesmo tempo, pode não subir e descer com facilidade uma escada, porque esta situação pode não ter feito parte de sua experiência de vida.
Aspectos do desenvolvimento humano
O desenvolvimento humano deve ser entendido como uma globalidade, mas, para efeito de estudo, tem sido abordado a partir de quatros aspectos básico:
Aspecto físico-motor - refere-se ao crescimento orgânico, à maturação neurofisiológica, à capacidade de manipulação de objetos e de exercício do próprio corpo. Exemplo: a criança leva a chupeta à boca ou consegue tomar mamadeira sozinha, por volta dos 7 meses, porque já coordena os movimentos das mãos.
Aspecto intelectual - é a capacidade de pensamento, raciocínio. Exemplo: a criança de 2 anos que usa um cabo de vassoura para puxar um brinquedo que está embaixo de um móvel ou o jovem que planeja seus gastos a partir de seu salário.
Aspecto afetivo-emocional - é o modo particular de o indivíduo integrar as suas experiências. É o sentir. A sexualidade faz parte dessa etapa. Exemplo: a vergonha que sentimos em algumas situações, o medo em outras, a alegria de rever um parente querido.
Aspecto social - é a maneira como o indivíduo reage diante das situações que envolvem outras pessoas. Exemplo: em um grupo de crianças, no parque, é possível observar algumas que espontaneamente buscam outras para brincar, e algumas que permanecem sozinhas.
Todas as teorias do desenvolvimento humano partem do pressuposto de que esses quatro aspectos são indissociados, mas elas podem enfatizar aspectos diferentes, ou seja, estudar o desenvolvimento global a partir da ênfase em um dos aspectos. A Psicanálise, por exemplo, estuda o desenvolvimento da sexualidade. Jean Piaget enfatiza o desenvolvimento intelectual.
A teoria do desenvolvimento humano de Piaget
O psicólogo divide os períodos do desenvolvimento de acordo com o aparecimento de novas qualidades do pensamento, o que, por sua vez, interfere no desenvolvimento global.
1º período: sensório-motor (0 a 2 anos)
Neste período a criança conquista, através da percepção e dos movimentos, todo o universo que a cerca. Para o recém-nascido a vida mental está reduzida ao exercício dos aparelhos reflexos, de fundo hereditário, como a sucção, que melhoram com o treino. Exemplo: o bebê mama melhor no 15º dia do que no 4º dia de vida. Já próximo ao final do período a criança descobre que é capaz de usar um instrumento como meio de atingir um objeto. Por exemplo: se puxar a toalha da mesa a lata de biscoitos ficará mais perto. Utiliza a inteligência prática ou sensório-motora que envolve as percepções e movimentos.
No curto espaço de tempo desse período a criança evolui de uma atitude passiva em relação ao ambiente e pessoas de seu mundo para uma atitude ativa e participativa. Sua integração no social se dá pela imitação das regras. Embora compreenda algumas palavras, só é capaz de uma fala imitativa.
2º período: pré-operatório (2 a 7 anos)
Neste período surge a linguagem que irá proporcionar mudanças significativas nos aspectos afetivo, intelectual e social da criança. É o início da interação e comunicação. Com a palavra falada e escrita surge a possibilidade da exteriorização da vida interior, antecipando o que o ser irá fazer. É o momento de desenvolver o pensamento. No início desse período a criança transforma o real em função dos seus desejos e fantasias (fase dos jogos simbólicos) e posteriormente utiliza-o como referencial para explicar o mundo real, ou seja, a sua própria atividade, seu eu e suas leis morais. No final do período passa a procurar a causa e finalidade de tudo; é o momento dos famosos porquês, um pensamento mais adaptado ao outro e ao real.
Importante destacar que neste período a maturação neurofisiológica se completa, permitindo o desenvolvimento de novas habilidades, como a coordenação motora fina - pegar pequenos objetos com a ponta dos dedos, saber segurar o garfo ou o lápis corretamente.
3º período: operações concretas (7 a 11 ou 12 anos)
É o início da construção lógica, ou seja, a capacidade da criança estabelecer relações que permitam a coordenação de pontos de vista diferentes. No plano afetivo isto significa que ela será capaz de cooperar com os outros, de desenvolver tarefas em grupo e ao mesmo tempo ter autonomia. É capaz de entender conceitos como liberdade e justiça. Vai aprendendo a dominar progressivamente a capacidade de abstrair e generalizar.
No aspecto afetivo surge o aparecimento da vontade como qualidade superior. A criança adquire uma crescente autonomia em relação ao adulto, passando a organizar os seus próprios valores morais. Exemplo: o respeito mútuo, a honestidade, o companheirismo, a justiça, que considera a intenção na ação. O grupo de colegas satisfaz as necessidades de segurança e afeto.
4º período: operações formais (11 ou 12 anos em diante)
É a chegada da adolescência, quando ocorre a passagem do pensamento concreto para o formal (abstrato), proporcionando a realização de operações no plano das idéias, sem necessitar de manipulação ou referências concretas, como no período anterior. Cria teorias sobre o mundo, principalmente sobre aspectos que gostaria de reformular.
No aspecto afetivo o adolescente vive muitos conflitos. Deseja se libertar dos adultos, mas ainda depende deles. Deseja ser aceito pelos amigos e pessoas mais velhas. Sua referencial maior passa a ser o grupo de amigos, determinando seu comportamento (maneira de vestir, falar, pensar...). São diversos os interesses, gerando mudanças constantes no fazer e pensar. A estabilidade chega com a proximidade da idade adulta.
Segundo Piaget, cada período é caracterizado por aquilo que de melhor o indivíduo consegue fazer nessas faixas etárias. Todos os indivíduos passam por todas essas fases ou períodos, nessa seqüência, porém o início e o término de cada uma delas dependem das características biológicas do indivíduo e de fatores educacionais, sociais. Portanto, a divisão nessas faixas etárias é uma referência, e não uma norma rígida.
Na idade adulta não surge nenhuma nova estrutura mental, e o indivíduo caminha então para um aumento gradual do desenvolvimento cognitivo, em profundidade, e uma maior compreensão dos problemas e das realidades significativas que o atingem. Isto influencia os conteúdos afetivos-emocionais e sua forma de estar no mundo.
O enfoque interacionista do desenvolvimento humano por Vigotski
Ao falarmos de desenvolvimento humano não podemos deixar de citar o autor Lev Semenovich Vigotski, que nasceu na Bielorrússia, no ano de 1896, falecendo prematuramente aos 37 anos de idade. Vigotski foi um dos teóricos que buscou uma alternativa dentro do materialismo dialético para o conflito entre as concepções idealista e mecanicista na Psicologia. Ao lado de Luria e Leontiev, construiu propostas teóricas inovadoras sobre temas como: relação pensamento e linguagem, natureza do processo de desenvolvimento da criança e o papel da instrução no desenvolvimento.
Vigotski foi ignorado no Ocidente, e mesmo na ex-União Soviética a publicação de suas obras foi suspensa entre 1936 e 56. Atualmente seu trabalho vem sendo estudado e valorizado no mundo inteiro.
Um pressuposto básico da obra de Vigotski é que as origens das formas superiores de comportamento consciente (pensamento, memória, atenção voluntária...), formas essas que diferenciam o homem dos outros animais, devem ser achadas nas relações sociais que o homem mantém. Mas Vigotski não via o homem como um ser passivo, conseqüência dessas relações. Entendia o homem como ser ativo, que age sobre o mundo, sempre em relações sociais, e transforma essas ações para que constituam o funcionamento de um plano interno.
Para Vigotski, as funções psicológicas emergem e se consolidam no plano da ação entre pessoas e tornam-se internalizadas, ou seja, transformam-se para constituir o funcionamento interno. O plano interno não é a reprodução do plano externo, pois ocorrem transformações ao longo do processo de internalização. Do plano interpsíquico, as ações passam para o plano intrapsíquico. Considera, portanto, as relações sociais como constitutivas das funções psicológicas do homem. Essa visão de Vigotski justificou o título de sócio-interacionismo à sua teoria.
Vigotski deu ênfase, como mecanismo que intervém no desenvolvimento das funções psicológicas complexas, ao processo de internalização. Esta é reconstrução interna de uma operação externa e tem como base a linguagem. O plano interno, para Vigotski, não preexiste, mas é constituído pelo processo de internalização, fundado nas ações, nas interações sociais e na linguagem.
Assim, para Vigotski, a história da sociedade e o desenvolvimento do homem caminham juntos e, mais do que isso, estão de tal forma intrincada, que um não seria o que é sem o outro. Com essa perspectiva, é que Vigotski estudou o desenvolvimento infantil. Para ele, as crianças, desde o nascimento, estão em constante interação com os adultos, que ativamente procuram incorporá-las a suas relações e a sua cultura.
O desenvolvimento infantil na visão do psicólogo russo é visto a partir de três aspectos: cultural, instrumental e histórico.
Aspecto cultural
Envolve os meios socialmente estruturados pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em crescimento enfrenta. Um dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem, por isso Vigotski deu ênfase à linguagem e sua relação com o pensamento.
Aspecto instrumental
Refere-se à natureza mediadora das funções psicológicas complexas. Temos como exemplo a atitude popular de amarrar um barbante no dedo para lembrar algo. O estímulo (o laço) significa mais do que um dedo amarrado, adquirindo o sentido, por sua função mediadora, de lembrar o indivíduo de algo importante.
Aspecto histórico
Funde-se com o cultural, pois os instrumentos que o homem lança mão, para dominar o seu ambiente e seu comportamento, foram criados e modificados ao longo da história social da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os poderes dos seres humanos e estruturaram seu pensamento, através da linguagem escrita e aritmética.
Para o psicólogo russo a história da sociedade e o desenvolvimento do homem caminham lado a lado. Foi com essa visão que Vigotski estudou o desenvolvimento infantil.
Diferenças básica entre Piaget e Vigotski
Se compararmos os dois maiores teóricos do desenvolvimento humano, podemos dizer, correndo algum risco de sermos simplistas, que Piaget apresenta uma tendência hiperconstrutivista em sua teoria, com ênfase no papel estruturante do sujeito. Maturação, experiências físicas, transmissões sociais e culturais, são fatores desenvolvidos na teoria de Piaget. Vigotski, por outro lado, enfatiza o aspecto interacionista, pois considera que é no plano intersubjetivo, ou seja, na troca entre as pessoas, que têm origem as funções mentais superiores.
A teoria de Piaget apresenta também a dimensão interacionista, mas sua ênfase é colocada na interação do sujeito com o objeto físico. Além disso, não está clara em sua teoria a função da interação social no processo do conhecimento.
A teoria de Vigotski, por outro lado, também apresenta um aspecto construtivista, na medida em que busca explicar o aparecimento de inovações e mudanças no desenvolvimento a partir do mecanismo de internalização. No entanto, temos na teoria sócio-interacionista apenas um quadro esboçado, que apresenta sugestões e caminhos, mas necessita de estudos e pesquisas que explicitem os mecanismos característicos dos processos de desenvolvimento.
Luria aponta uma diferença entre essas teorias: “quando a obra de Piaget, A linguagem e o pensamento da criança, chegou ao nosso conhecimento, nós a estudamos cuidadosamente. Um desacordo fundamental da interpretação da relação entre a linguagem e o pensamento distinguia o nosso trabalho da obra desse grande psicólogo suíço... discordamos fundamentalmente da idéia de que a fala inicial da criança não apresenta um papel importante no pensamento.” (BOCK, Ana M. Bahia et alii. Psicologias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 94.)
Existem várias teorias do desenvolvimento humano em Psicologia. Elas foram construídas a partir de observações, pesquisas com grupos de indivíduos em diferentes faixas etárias ou em diferentes culturas, estudos de casos clínicos, acompanhamento de indivíduos desde o nascimento até a idade adulta. Dentre essas teorias, destaca-se a de Jean Piaget (1896-1980), psicólogo e biólogo suíço, pela sua vasta produção de pesquisas, pelo rigor científico de sua produção teórica e pelas implicações práticas de sua teoria, principalmente no campo da Educação.
O desenvolvimento humano
Refere-se ao desenvolvimento mental e ao crescimento orgânico. O desenvolvimento mental é uma construção contínua, que se caracteriza pelo aparecimento gradativo de estruturas mentais. Estas são formas de organização da atividade mental que se vão aperfeiçoando e se solidificando até o momento em que todas elas, estando plenamente desenvolvidas, caracterizarão um estado de equilíbrio superior quanto aos aspectos da inteligência, vida afetiva e relações sociais.
Algumas dessas estruturas mentais permanecem ao longo de toda a vida. Por exemplo, a motivação está sempre presente como desencadeadora da ação, quer seja por necessidades fisiológicas, quer seja por necessidades afetivas ou intelectuais. Essas estruturas mentais que permanecem garantem a continuidade do desenvolvimento. Outras estruturas são substituídas a cada nova fase da vida do indivíduo. Por exemplo, a moral da obediência da criança pequena é substituída pela autonomia moral do adolescente ou, outro exemplo, a noção de que o objeto existe só quando a criança o vê (antes do 2 anos) é substituída posteriormente pela capacidade de atribuir ao objeto sua conservação, mesmo quando ele não está presente no seu campo visual.
Estudar o desenvolvimento humano significa conhecer as características comuns de uma faixa etária, permitindo-nos reconhecer as individualidades, o que nos torna mais aptos para a observação e interpretação dos comportamentos. Estudos e pesquisas de Piaget demonstraram que existem formas de perceber, compreender e se comportar diante do mundo, próprias de cada faixa etária, ou seja, existe uma assimilação progressiva do meio ambiente, que implica uma acomodação das estruturas mentais a este novo dado do mundo exterior.
Todos esses aspectos levantados têm importância para a Educação. Planejar o que e como ensinar implica saber quem é o educando. Exemplo: a linguagem que usamos com uma criança de 6 anos não é a mesma que empregamos com uma jovem de 12 anos.
Os fatores que influenciam o desenvolvimento humano
Estudar o desenvolvimento humano significa descobrir que ele é determinado pela interação de vários fatores. A saber:
Hereditariedade - a carga genética estabelece o potencial do indivíduo, que pode ou não desenvolver-se. Existem pesquisas que comprovam os aspectos genéticos da inteligência. No entanto, a inteligência pode desenvolver-se aquém ou além do seu potencial, dependendo das condições do meio que encontra.
Crescimento orgânico - refere-se ao aspecto físico. O aumento de altura e a estabilização do esqueleto permitem ao indivíduo comportamentos e um domínio do mundo que antes não existiam. Exemplo: as possibilidades de descobertas de uma criança, quando começa a engatinhar e depois a andar, em relação a quando esta criança estava no berço com alguns dias de vida.
Maturação neurofisiológica - é o que torna possível determinado padrão de comportamento. A alfabetização das crianças, por exemplo, depende dessa maturação. Para segurar o lápis e manejá-lo como nós, é necessário um desenvolvimento neurológico que a criança de 2 anos não tem. Observe como ela segura o lápis.
Meio - o conjunto de influências e estimulações ambientais altera os padrões de comportamento do indivíduo. Exemplo: se a estimulação verbal for muito intensa, uma criança de 3 anos pode ter um repertório verbal muito maior do que a média das crianças de sua idade., mas, ao mesmo tempo, pode não subir e descer com facilidade uma escada, porque esta situação pode não ter feito parte de sua experiência de vida.
Aspectos do desenvolvimento humano
O desenvolvimento humano deve ser entendido como uma globalidade, mas, para efeito de estudo, tem sido abordado a partir de quatros aspectos básico:
Aspecto físico-motor - refere-se ao crescimento orgânico, à maturação neurofisiológica, à capacidade de manipulação de objetos e de exercício do próprio corpo. Exemplo: a criança leva a chupeta à boca ou consegue tomar mamadeira sozinha, por volta dos 7 meses, porque já coordena os movimentos das mãos.
Aspecto intelectual - é a capacidade de pensamento, raciocínio. Exemplo: a criança de 2 anos que usa um cabo de vassoura para puxar um brinquedo que está embaixo de um móvel ou o jovem que planeja seus gastos a partir de seu salário.
Aspecto afetivo-emocional - é o modo particular de o indivíduo integrar as suas experiências. É o sentir. A sexualidade faz parte dessa etapa. Exemplo: a vergonha que sentimos em algumas situações, o medo em outras, a alegria de rever um parente querido.
Aspecto social - é a maneira como o indivíduo reage diante das situações que envolvem outras pessoas. Exemplo: em um grupo de crianças, no parque, é possível observar algumas que espontaneamente buscam outras para brincar, e algumas que permanecem sozinhas.
Todas as teorias do desenvolvimento humano partem do pressuposto de que esses quatro aspectos são indissociados, mas elas podem enfatizar aspectos diferentes, ou seja, estudar o desenvolvimento global a partir da ênfase em um dos aspectos. A Psicanálise, por exemplo, estuda o desenvolvimento da sexualidade. Jean Piaget enfatiza o desenvolvimento intelectual.
A teoria do desenvolvimento humano de Piaget
O psicólogo divide os períodos do desenvolvimento de acordo com o aparecimento de novas qualidades do pensamento, o que, por sua vez, interfere no desenvolvimento global.
1º período: sensório-motor (0 a 2 anos)
Neste período a criança conquista, através da percepção e dos movimentos, todo o universo que a cerca. Para o recém-nascido a vida mental está reduzida ao exercício dos aparelhos reflexos, de fundo hereditário, como a sucção, que melhoram com o treino. Exemplo: o bebê mama melhor no 15º dia do que no 4º dia de vida. Já próximo ao final do período a criança descobre que é capaz de usar um instrumento como meio de atingir um objeto. Por exemplo: se puxar a toalha da mesa a lata de biscoitos ficará mais perto. Utiliza a inteligência prática ou sensório-motora que envolve as percepções e movimentos.
No curto espaço de tempo desse período a criança evolui de uma atitude passiva em relação ao ambiente e pessoas de seu mundo para uma atitude ativa e participativa. Sua integração no social se dá pela imitação das regras. Embora compreenda algumas palavras, só é capaz de uma fala imitativa.
2º período: pré-operatório (2 a 7 anos)
Neste período surge a linguagem que irá proporcionar mudanças significativas nos aspectos afetivo, intelectual e social da criança. É o início da interação e comunicação. Com a palavra falada e escrita surge a possibilidade da exteriorização da vida interior, antecipando o que o ser irá fazer. É o momento de desenvolver o pensamento. No início desse período a criança transforma o real em função dos seus desejos e fantasias (fase dos jogos simbólicos) e posteriormente utiliza-o como referencial para explicar o mundo real, ou seja, a sua própria atividade, seu eu e suas leis morais. No final do período passa a procurar a causa e finalidade de tudo; é o momento dos famosos porquês, um pensamento mais adaptado ao outro e ao real.
Importante destacar que neste período a maturação neurofisiológica se completa, permitindo o desenvolvimento de novas habilidades, como a coordenação motora fina - pegar pequenos objetos com a ponta dos dedos, saber segurar o garfo ou o lápis corretamente.
3º período: operações concretas (7 a 11 ou 12 anos)
É o início da construção lógica, ou seja, a capacidade da criança estabelecer relações que permitam a coordenação de pontos de vista diferentes. No plano afetivo isto significa que ela será capaz de cooperar com os outros, de desenvolver tarefas em grupo e ao mesmo tempo ter autonomia. É capaz de entender conceitos como liberdade e justiça. Vai aprendendo a dominar progressivamente a capacidade de abstrair e generalizar.
No aspecto afetivo surge o aparecimento da vontade como qualidade superior. A criança adquire uma crescente autonomia em relação ao adulto, passando a organizar os seus próprios valores morais. Exemplo: o respeito mútuo, a honestidade, o companheirismo, a justiça, que considera a intenção na ação. O grupo de colegas satisfaz as necessidades de segurança e afeto.
4º período: operações formais (11 ou 12 anos em diante)
É a chegada da adolescência, quando ocorre a passagem do pensamento concreto para o formal (abstrato), proporcionando a realização de operações no plano das idéias, sem necessitar de manipulação ou referências concretas, como no período anterior. Cria teorias sobre o mundo, principalmente sobre aspectos que gostaria de reformular.
No aspecto afetivo o adolescente vive muitos conflitos. Deseja se libertar dos adultos, mas ainda depende deles. Deseja ser aceito pelos amigos e pessoas mais velhas. Sua referencial maior passa a ser o grupo de amigos, determinando seu comportamento (maneira de vestir, falar, pensar...). São diversos os interesses, gerando mudanças constantes no fazer e pensar. A estabilidade chega com a proximidade da idade adulta.
Segundo Piaget, cada período é caracterizado por aquilo que de melhor o indivíduo consegue fazer nessas faixas etárias. Todos os indivíduos passam por todas essas fases ou períodos, nessa seqüência, porém o início e o término de cada uma delas dependem das características biológicas do indivíduo e de fatores educacionais, sociais. Portanto, a divisão nessas faixas etárias é uma referência, e não uma norma rígida.
Na idade adulta não surge nenhuma nova estrutura mental, e o indivíduo caminha então para um aumento gradual do desenvolvimento cognitivo, em profundidade, e uma maior compreensão dos problemas e das realidades significativas que o atingem. Isto influencia os conteúdos afetivos-emocionais e sua forma de estar no mundo.
O enfoque interacionista do desenvolvimento humano por Vigotski
Ao falarmos de desenvolvimento humano não podemos deixar de citar o autor Lev Semenovich Vigotski, que nasceu na Bielorrússia, no ano de 1896, falecendo prematuramente aos 37 anos de idade. Vigotski foi um dos teóricos que buscou uma alternativa dentro do materialismo dialético para o conflito entre as concepções idealista e mecanicista na Psicologia. Ao lado de Luria e Leontiev, construiu propostas teóricas inovadoras sobre temas como: relação pensamento e linguagem, natureza do processo de desenvolvimento da criança e o papel da instrução no desenvolvimento.
Vigotski foi ignorado no Ocidente, e mesmo na ex-União Soviética a publicação de suas obras foi suspensa entre 1936 e 56. Atualmente seu trabalho vem sendo estudado e valorizado no mundo inteiro.
Um pressuposto básico da obra de Vigotski é que as origens das formas superiores de comportamento consciente (pensamento, memória, atenção voluntária...), formas essas que diferenciam o homem dos outros animais, devem ser achadas nas relações sociais que o homem mantém. Mas Vigotski não via o homem como um ser passivo, conseqüência dessas relações. Entendia o homem como ser ativo, que age sobre o mundo, sempre em relações sociais, e transforma essas ações para que constituam o funcionamento de um plano interno.
Para Vigotski, as funções psicológicas emergem e se consolidam no plano da ação entre pessoas e tornam-se internalizadas, ou seja, transformam-se para constituir o funcionamento interno. O plano interno não é a reprodução do plano externo, pois ocorrem transformações ao longo do processo de internalização. Do plano interpsíquico, as ações passam para o plano intrapsíquico. Considera, portanto, as relações sociais como constitutivas das funções psicológicas do homem. Essa visão de Vigotski justificou o título de sócio-interacionismo à sua teoria.
Vigotski deu ênfase, como mecanismo que intervém no desenvolvimento das funções psicológicas complexas, ao processo de internalização. Esta é reconstrução interna de uma operação externa e tem como base a linguagem. O plano interno, para Vigotski, não preexiste, mas é constituído pelo processo de internalização, fundado nas ações, nas interações sociais e na linguagem.
Assim, para Vigotski, a história da sociedade e o desenvolvimento do homem caminham juntos e, mais do que isso, estão de tal forma intrincada, que um não seria o que é sem o outro. Com essa perspectiva, é que Vigotski estudou o desenvolvimento infantil. Para ele, as crianças, desde o nascimento, estão em constante interação com os adultos, que ativamente procuram incorporá-las a suas relações e a sua cultura.
O desenvolvimento infantil na visão do psicólogo russo é visto a partir de três aspectos: cultural, instrumental e histórico.
Aspecto cultural
Envolve os meios socialmente estruturados pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em crescimento enfrenta. Um dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem, por isso Vigotski deu ênfase à linguagem e sua relação com o pensamento.
Aspecto instrumental
Refere-se à natureza mediadora das funções psicológicas complexas. Temos como exemplo a atitude popular de amarrar um barbante no dedo para lembrar algo. O estímulo (o laço) significa mais do que um dedo amarrado, adquirindo o sentido, por sua função mediadora, de lembrar o indivíduo de algo importante.
Aspecto histórico
Funde-se com o cultural, pois os instrumentos que o homem lança mão, para dominar o seu ambiente e seu comportamento, foram criados e modificados ao longo da história social da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os poderes dos seres humanos e estruturaram seu pensamento, através da linguagem escrita e aritmética.
Para o psicólogo russo a história da sociedade e o desenvolvimento do homem caminham lado a lado. Foi com essa visão que Vigotski estudou o desenvolvimento infantil.
Diferenças básica entre Piaget e Vigotski
Se compararmos os dois maiores teóricos do desenvolvimento humano, podemos dizer, correndo algum risco de sermos simplistas, que Piaget apresenta uma tendência hiperconstrutivista em sua teoria, com ênfase no papel estruturante do sujeito. Maturação, experiências físicas, transmissões sociais e culturais, são fatores desenvolvidos na teoria de Piaget. Vigotski, por outro lado, enfatiza o aspecto interacionista, pois considera que é no plano intersubjetivo, ou seja, na troca entre as pessoas, que têm origem as funções mentais superiores.
A teoria de Piaget apresenta também a dimensão interacionista, mas sua ênfase é colocada na interação do sujeito com o objeto físico. Além disso, não está clara em sua teoria a função da interação social no processo do conhecimento.
A teoria de Vigotski, por outro lado, também apresenta um aspecto construtivista, na medida em que busca explicar o aparecimento de inovações e mudanças no desenvolvimento a partir do mecanismo de internalização. No entanto, temos na teoria sócio-interacionista apenas um quadro esboçado, que apresenta sugestões e caminhos, mas necessita de estudos e pesquisas que explicitem os mecanismos característicos dos processos de desenvolvimento.
Luria aponta uma diferença entre essas teorias: “quando a obra de Piaget, A linguagem e o pensamento da criança, chegou ao nosso conhecimento, nós a estudamos cuidadosamente. Um desacordo fundamental da interpretação da relação entre a linguagem e o pensamento distinguia o nosso trabalho da obra desse grande psicólogo suíço... discordamos fundamentalmente da idéia de que a fala inicial da criança não apresenta um papel importante no pensamento.” (BOCK, Ana M. Bahia et alii. Psicologias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 94.)