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As escolas europeias

Dentre as escolas europeias de Psicologia que alcançaram maior destaque até meados do século XX estão:

A gestalt

 É uma corrente teórica coesa e coerente. Seus articuladores preocuparam-se em construir não só uma teoria consistente, mas também uma base metodológica forte, que garantisse a consistência teórica da Escola.

Gestalt é uma expressão de origem alemã de difícil tradução. O termo mais próximo em português seria forma ou configuração, que não deve ser utilizado, por não corresponder exatamente ao seu real significado em Psicologia.

Os primeiros gestaltistas (por volta de 1870) iniciaram seus estudos pela percepção e sensação do movimento. Estavam preocupados em compreender quais os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito como uma forma diferente da que ele tem na realidade. É o caso do cinema, onde fotogramas estáticos, ao serem projetados na tela, nos dão a ilusão de movimento, causada pela pós-imagem retiniana (a imagem demora um pouco para se apagar em nossa retina). Como as imagens vão-se sobrepondo em nossa retina, temos a sensação de movimento. Mas o que de fato é projetado na tela são fotografias estáticas.

Com seu desenvolvimento teórico a Gestalt ampliou seu leque de atuação e transformou-se em uma sólida linha teórica que deu origem a fenomenologia. Esta corrente traz em si a concepção de que não se pode conhecer o todo através das partes e sim as partes por meio do conjunto. Este tem suas próprias leis, que coordenam seus elementos, Só assim o cérebro percebe, interpreta e assimila uma imagem ou ideia. Essa corrente alemã de psicologia chegou a elaborar algumas leis que regem a faculdade de conhecer os objetos. Vejamos:

Semelhança
Objetos semelhantes tendem a permanecer juntos, seja nas cores, nas texturas ou nas impressões de massa. Esta característica pode ser usada como fator de harmonia ou desarmonia visual.

Proximidade
Partes mais próximas umas das outras, em certo local, inclinam-se a ser vistas como um grupo.

Boa continuidade
Alinhamento harmônico das formas.

Pregnância
Este é o postulado da simplicidade natural da percepção, para melhor assimilação da imagem. É a lei mais importante dessa corrente.

Clausura
A boa forma encerra-se sobre si mesma, compondo uma figura que tem limites bem marcado.

Experiência fechada
Esta lei está relacionada ao atomismo, pensamento anterior a Gestalt. Se conhecermos anteriormente determinada forma, com certeza a compreendemos melhor, por meio de associações do aqui e agora com uma vivência anterior.

O ponto de partida e também um dos temas centrais dos estudos gestaltistas é o comportamento, só que eles estudam o comportamento nos seus aspectos mais globais, levando em consideração as condições que alteram a percepção do estímulo. Para justificar essa postura, eles (os históricos) se baseavam na teoria do isomorfismo, que supunha uma unidade no universo, onde a parte está sempre relacionada ao todo, isto é, quando vemos uma parte de um objeto, ocorrerá uma tendência à restauração do equilíbrio da forma, garantindo o entendimento do que estou percebendo. Esse fenômeno da percepção é norteado pela busca do fechamento, simetria e regularidade dos pontos que compõem uma figura ou objeto.

A Gestalt encontra nesses fenômenos da percepção as condições para compreender o comportamento humano. Para esta corrente da Psicologia, a maneira como percebemos um determinado estímulo irá desencadear nosso comportamento.

A Psicologia da Gestalt, diferente do Associacionismo, vê a aprendizagem como a relação entre o todo e a parte, onde o todo tem papel preponderante na compreensão do objeto percebido. Exemplo: uma criança de 3 anos, que ainda não sabe ler, distinguir a logomarca de um refrigerante (Coca-Cola) e nomeá-lo corretamente. Ela separou a palavra na sua totalidade, distinguindo a figura e o fundo. A figura ilustra a noção de boa-forma, ou seja, o elemento que objetivamos compreender deve ser apresentado em aspectos básicos que permitam a sua decodificação, isto é, a percepção da boa-forma. A tendência de nossa percepção em buscar a boa-forma permitirá a relação figura-fundo. Quanto mais clara estiver à forma (boa-forma), mais clara será a separação entre a figura e o fundo. A publicidade utiliza muito bem este conceito.


A psicanálise

Sigmund Freud (1856-1939), médico vienense que alterou, radicalmente, o modo de pensar a vida psíquica, ousando colocar os processos misteriosos do psiquismo humano (suas regiões obscuras, fantasias, sonhos, esquecimentos...) como problemas científicos. A investigação sistemática desses problemas levou Freud à criação da psicanálise. O termo é usado para se referir a uma teoria, a um método de investigação e uma prática profissional. Enquanto teoria caracteriza-se por um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica. Enquanto método de investigação caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto através de ações e palavras ou através das produções imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres. A prática profissional refere-se à forma de tratamento psicológico (a análise), que visa à cura ou o autoconhecimento.

Freud formou-se em Medicina pela Universidade de Viena (1881) e especializou-se em Psiquiatria. Trabalhou em um laboratório de Fisiologia e deu aulas de Neuropatologia no instituto em que trabalhava. Por dificuldades financeiras não pode dedicar-se integralmente a vida acadêmica. Foi clinicar, atendendo pessoas com problemas nervosos. Obteve uma bolsa de estudo para Paris, onde trabalhou com Jean Charcot, psiquiatra francês que tratava as histerias com hipnose. Em 1886 retornou a Viena e continuou a clinicar e teve como parceiro o médico e cientista Josef Breuer, que lhe apresentou a paciente Ana O, que apresentava um conjunto de sintomas que a fazia sofrer: paralisia com contratura muscular, inibições e dificuldades de pensamento. Esse quadro clínico teve origem na época em que Ana O cuidava do pai enfermo e desenvolvia o desejo de que seu velho morresse. Essas idéias e sentimentos foram reprimidos e substituídos pelos sintomas.

Em seu estado normal Ana O não conseguia identificar a causa do seu problema, mas sobre o efeito da hipnose relatava a origem de cada um deles, todos relacionados com a doença do pai. Com a rememoração dessas cenas e vivências, os sintomas desapareceram. Aos poucos Freud foi deixando a técnica da hipnose de lado (conhecida como método catártico de Breuer) e passou a desenvolver o método de concentração, no qual a rememoração sistemática era feita por meio de uma conversa normal. Mais adiante abandonou as perguntas, por sugestão de uma jovem paciente anônima, e se concentrou na fala desordenada do paciente, dando ênfase a associação livre e a atenção flutuante. Aproximava-se da sua grande descoberta: o inconsciente.

Os conceitos e as postulações do psicanalista vienense são fundamentais para nós entendermos as suas teorias. Inicialmente Freud entendia que todas as cenas relatadas pelos pacientes tinham de fato ocorrido. Depois verificou que poderiam ter sido imaginadas, mas com a mesma força e conseqüências de uma situação real. Nomeou a descoberta como realidade psíquica. O funcionamento psíquico é concebido a partir de três pontos de vista: o econômico: existe uma quantidade de energia que alimenta os processos psíquicos; o tópico: o aparelho psíquico é constituído de um número de sistemas que são diferenciados quanto a sua natureza e modo de funcionamento, o que permite considerá-lo como lugar psíquico; e o dinâmico: no interior do psiquismo existem forças que entram em conflito e estão permanentemente ativas. A origem dessas forças ficou conhecida como pulsão. Os três pontos funcionam simultaneamente.

A pulsão refere-se a um estado de tensão que busca, através de um objeto, a supressão desse estado; é um conceito alternativo para o instinto. Eros é pulsão de vida e abrange as pulsões sexuais e as de autoconservação. Tanatos é a pulsão da morte, pode ser autodestrutiva ou estar dirigida para fora e se manifestar como pulsão agressiva ou destrutiva.

Sintoma, na teoria freudiana, é a produção (um comportamento ou pensamento) resultante de um conflito psíquico entre o desejo e os mecanismos de defesa. O sintoma ao mesmo tempo em que sinaliza, busca encobrir um conflito, substituir a satisfação do desejo. Ele é ou pode ser o ponto de partida da investigação psicanalítica na tentativa de descobrir os processos psíquicos encobertos que determinam sua formação. Os sintomas de Ana O eram a paralisia e os distúrbios do pensamento: hoje, o sintoma da colega da sala de aula é recusar-se a comer.


A primeira teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico

Em 1900, na obra 'A interpretação dos sonhos', Freud apresenta a primeira concepção sobre a estrutura e funcionamento da personalidade. Essa teoria refere-se à existência de três sistemas ou instâncias psíquicas:

O inconsciente: exprime o conjunto dos conteúdos não presentes na consciência. É formado por conteúdos reprimidos, que não têm acesso aos sistemas pré-consciente/consciente, pela ação de censuras internas. Estes conteúdos podem ter sido conscientes, em algum momento, e terem sido reprimidos, isto é, foram para o inconsciente, ou podem ser genuinamente inconscientes. O inconsciente é um sistema do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Por exemplo: não existem as noções do passado e presente.

O pré-consciente: refere-se ao sistema onde permanecem aqueles conteúdos acessíveis à consciência. É aquilo que não está na consciência, neste momento, mas que no momento seguinte pode estar.

O consciente: é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as do interior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção e, principalmente, a percepção do mundo exterior.

Em suas investigações na prática clínica sobre as causas e o funcionamento das neuroses o psicanalista descobriu que a maioria de pensamentos e desejos reprimidos estavam ligados aos conflitos de ordem sexual, localizados na infância dos pacientes, através de experiências traumáticas vivenciadas ou fantasiadas. É a descoberta da sexualidade infantil e suas fases: oral (a zona de erotização é a boca), anal (o ânus), a fálica (o órgão sexual). Em seguida vem um período de latência, que se prolonga até a puberdade e se caracteriza por uma diminuição das atividades sexuais, ou seja, há um intervalo na evolução da sexualidade. Na puberdade é atingida a última fase: a genital, quando o objeto de erotização ou de desejo não está mais no próprio corpo, mas em algo externo ao indivíduo, o outro.

Desses eventos destaca-se o complexo de Édipo, pois é em torno dele que ocorre a estruturação da personalidade do indivíduo. Ocorre durante a fase fálica, entre 3 e 5 anos. Nesse complexo a mãe é o objeto do desejo do filho e o pai é o rival que impede o acesso ao objeto desejado. Ele procura então ser o pai para ter a mãe, internalizando as regras e normas sociais representadas e impostas pela autoridade paterna. É a noção do limite. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Posteriormente, temendo perder o amor do pai, desiste da mãe, trocando-a pela riqueza do mundo social e cultural. O mesmo processo se dá com as meninas, sendo invertidas as figuras do desejo, recebendo o nome de Édipo feminino.


Segunda teoria do aparelho psíquico

Entre 1920 e 1923, Freud remodela a teoria do aparelho psíquico e introduz os conceitos de id, ego e superego para referir-se aos três sistemas da personalidade.

O id: constitui o reservatório de energia psíquica, é onde se localizam as pulsões: vida e morte. As características atribuídas ao sistema inconsciente, na primeira teoria, são agora atribuídas ao id, que é regido pelo princípio do prazer.

O ego: é o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as ordens do superego. Procura dar conta dos interesses da pessoa. É regido pelo princípio da realidade, que, com o princípio do prazer, rege o funcionamento psíquico. É um regulador, na medida em que altera o princípio do prazer para buscar a satisfação, considerando as condições objetivas da realidade. Neste sentido, a busca do prazer pode ser substituída evitando-se o desprazer. As funções básicas do ego são: percepção, memória, sentimentos e pensamento.

O superego: origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. A moral, os ideais, são funções do superego. O conteúdo do superego refere-se a exigências sociais e culturais.

O ego e, posteriormente, o superego são diferenciações do id, o que demonstra uma interdependência entre esses três sistemas, retirando a idéia de sistemas separados. O id refere-se ao inconsciente, mas o ego e o superego têm, também, aspectos ou partes inconscientes.

É importante considerar que estes sistemas não existem enquanto uma estrutura em si, mas são sempre habitados pelo conjunto de experiências pessoais e particulares de cada um, que se constitui como sujeito em sua relação com o outro e em determinadas circunstâncias sociais. Se fosse necessário concentrar numa palavra a descoberta freudiana, esta palavra seria inconsciente.


Os mecanismos de defesa contra a realidade

A percepção da realidade, no mundo interno ou externo, pode ser constrangedora, dolorosa, desorganizadora. Para evitar este desprazer o indivíduo a deforma ou reprime, ou seja, deixa de registrar, afasta determinados conteúdos psíquicos ou interfere no pensamento.

São diversos os recursos que a pessoa pode usar para realizar esta deformação, conhecidos como mecanismos de defesa. São processos realizados pelo ego e são inconscientes, isto é, ocorrem independentemente da vontade do indivíduo. A saber:

Recalque
A pessoa não vê, não ouve o que ocorre. É a supressão de uma parte da realidade. Sem perceber o indivíduo deforma o sentido do todo. Exemplo: é quando a pessoa entende uma proibição como permissão por não ter ouvido o não. O recalque é o mais radical mecanismo de defesa.

Formação reativa
O ego procura afastar o desejo que vai a determinada direção, fazendo com que a pessoa adote uma posição oposta a este desejo. Exemplo: as atitudes exageradas (superproteção ou ternura excessiva) que encobrem o seu oposto, um tremendo desejo agressivo. É o caso da mãe que superprotege o filho, do qual tem muita raiva porque atribui a ele muitas de suas dificuldades pessoais. Esta situação é aterradora para as mães.

Regressão
A pessoa retorna a etapas anteriores de seu desenvolvimento. É uma passagem para modos de expressão mais primitivos. Exemplo: o indivíduo que enfrenta situações difíceis com muita ponderação e ao ver uma barata grita desesperadamente e sobe em uma cadeira. Com certeza não é só a barata que ela vê.

Projeção
É a confluência de distorções do mundo interno e externo. A pessoa localiza algo de si no mundo externo e não se dá conta que aquilo foi projetado como algo que considera indesejável. Exemplo: o estudante que critica os colegas por serem muito competitivos e não percebe que também o é, sendo muitas vezes até mais do que os outros.

Racionalização
A pessoa constrói uma argumentação convincente e aceitável, que justifica os estados deformados da consciência, ou seja, uma defesa que justificam as outras. Na racionalização o ego coloca a razão a serviço do irracional e utiliza para isto o material fornecido pelo saber, inclusive o científico. Exemplo: argumentação e justificativas ideológicas para os impulsos destrutivos que surgem em uma guerra ou na defesa de preconceitos ou da pena de morte.

A característica essencial do trabalho psicanalítico é o de decifrar o inconsciente e promover a integração de seus conteúdos na consciência. São estes conteúdos desconhecidos e inconscientes que determinam a conduta dos seres humanos e dos grupos. Exemplo: as dificuldades para viver, o mal-estar, o sofrimento.

“Quando me impus à tarefa de trazer à luz o que os seres humanos guardam dentro de si, não pelo poder compulsivo da hipnose, mas observando o que eles dizem e mostram, pensei que a tarefa era mais difícil do que realmente é. Aquele que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir pode convencer-se de que nenhum mortal pode guardar um segredo. Se seus lábios estão silenciosos, ele fala com as pontas dos dedos; ele se trai por todos os poros. Assim, a tarefa de tornar conscientes os mais escondidos recessos da mente é perfeitamente realizável.” (Freud)