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Jornalismo: linguagem da simplicidade - capítulo I

Um passeio pela história
“O homem não é soma do que ele tem, mas a totalidade do que ainda não tem e do que poderia ter”.
Sartre


Há muito tempo, e talvez desde o início da cultura, a tarefa de guardar e produzir conhecimento vem-se especializando. Cada um de nós conceitua as coisas por comparação e contraste, do ângulo da utilidade, da função. Para comunicar esses conceitos, aplicamos princípios lógicos, como os que encadeiam os sons da linguagem falada, formando locuções, discursos. Foi a partir da língua que se inventou a lógica.

Com a escrita, mesmo em sua forma mais rudimentar, o homem venceu o tempo e o espaço. Ela permitiu a fixação do conhecimento, mantendo-o disponível ao longo do tempo e, simultaneamente, admitiu sua disseminação pelo transporte, facilitando a comunicação à distância.

Nos primórdios da comunicação os romanos estiveram bem próximos do jornal. Tão próximos que talvez lhe mereçam a paternidade. Longa foi a evolução que os levou até lá.

O presidente do colégio pontífices romanos, em função de seu trabalho, redigia documentos de caráter político, uns secretos – os Commentarii Pontificii –, outros populares – os Annales Maximi. A publicação dos documentos populares se fazia pela redação do texto em uma tábua branca denominada album, afixada anualmente diante da casa do pontifex maximus, seu redator. Não se sabe em que data teve início a publicação do annales, que constituíram uma interessante experiência de mural informativo.

Julio Cesar, retomando a experiência e utilizando o mesmo processo, determinou a publicação de dois periódicos murais: a Acta Senatus, resumo  dos debates e deliberações do Senado romano, a Acta Diurna Populi Romani, composta diariamente para levar ordens e informações oficiais ao conhecimento do povo. A Acta Senatus foi extinta por Augusto, mas a Diurna persistiu por séculos, somente desaparecendo, segundo se supõe,com a transferência da capital do Império para Bizânico. Embora redigida  por um magistrado e destinada oficialmente a comunicações do governo, o conteúdo da Acta Diurna foi-se transformando ao longo do tempo.

Seja como for, no muro ou em cópias, essa publicação demonstrou possuir variedade de matéria, além da periodicidade e atualidade. Foi um verdadeiro jornal, só que mural.

É verdade que a Acta Diurna, em termos de penetração, foi prejudicada por sua fixidez. Daí porque os romanos, para a troca de novidades, nunca dispensaram os circuli, grupos de gente desocupada que ficava tagarelando a respeito dos mais variados assuntos. No entanto, por cópias transladadas em cartas, o noticiário das actas circulava por todo império.


Idade Média

Durante a Idade Média, especialmente em sua primeira fase, a informação escrita sofreu um retrocesso na Europa. Inúmeros fatores  sociais e econômicos, bastante conhecidos eque exorbitam os limites do estudo do jornalismo, conduziram os europeus a um período de isolamento, que foi, ao mesmo tempo, efeito e causa da pulverização do poder político,tendo como conseqüência a queda do Império Romano.

O desaparecimento do papiro, o elevado preço do escasso pergaminho, a inexistência de papel – ainda confinado aos mundos chinês e árabe -, o analfabetismo reinante – pouco ou ainda se fazia em termos de literatura e de instrução -, tudo isso, ajudado por outras circunstâncias  históricas, haveria de debilitar o fluxo de informações. Nessa época, as informações disponíveis para a população vinham embutidas em decretos,proclamações, exortações e nos sermões das igrejas. Evidentemente, formavam-se circuitos paralelos de boatos e testemunhos. Contos de feitos notáveis, de eventos picarescos, crônicas da vida cotidiana e retalhos da literatura clássica levam décadas para  cruzar a Europa em cantigas e fábulas dos trovadores.

Reduzido o processo da comunicação à quase exclusividade da informação verbal,avultaram em importância os jograis, cantadores de versos trovadorescos, assim como outros artistas itinerantes. Peregrinando de castelo em castelo, tornaram-se os liames eventuais de uma geografia  dividida. Os versos, que iam sendo transmitidos de um local para o outro, consubstanciavam um repositório continuamente renovado de informações de diversificados matizes. Nas trovas, noticiavam-se eventos políticos e sociais de toda ordem e, até mesmo, curiosidade e mexericos.

Isso começou a mudar a partir do século XIII, como resultado da expansão da atividade comercial, iniciada nos século XI. A primeira grande via de comércio, unindo o Oriente à Europa, passava pela intermediação dos navios árabes que cortavam o mediterrâneo e despejavam mercadorias na encosta oriental da Itália.Com as mercadorias, chegaram técnicas e informações. Tempo de Marco Pólo, veneziano que escreveu coisas incríveis sobre o Oriente. A acumulação de capital logo teve conseqüência:  a organização mais ampla e atuante da atividade artesanal e alfabetização.Os avvisi (comunicados) já podiam ser pregados nos muros em cópias manuscritas:dispensava-se o letrado atrás teria que lê-los em voz alta. E mais importante, não provinham do duque nem do bispo: quem os mandavam escrever  eram banqueiros e comerciantes.

Este ciclo comercial promissor decaiu com o corte das vias de comércio com o Oriente, e,meados do século XV. Restava outro cominho entre a Europa e a Ásia,  pelo norte, a partirdos burgos da Alemanha. Ali, em Mogúncia, Gutemberg imprimiu a Bíblia, em 1452.


Relações

O jornal impresso dói fruto da soma de duas experiências: a da impressão tipográfica, de um lado, e a do jornalismo, até então manuscrito, de outro. Essa junção de experiências,entretanto, não se fez de repente. Foi resultado de um demorado processo.

Enquanto os correios e as cartas estiveram engendrando as gazetas manuscritas dos séculos XV e XVI, a tipografia exercitou-se na impressão de livros. Durante os 150  anos iniciais da tipografia, nenhum jornal saiu dos prelos. Jornal, nesse período, era coisa para se fazer a mão.

No entanto, ao longo desse século e meio, os tipógrafos não imprimiram só livros. Compuseram e deram ao mundo outras publicações, conhecidas como relações.

A relação era a descrição, impressa tipograficamente, de  um fato excepcional. Quando ocorria um terremoto ou a morte de um rei, ou o estouro de uma guerra, ou a celebração da paz, enfim algum acontecimento invulgar, alguém redigia uma notícia relatando o acontecimento e o tipógrafo a imprimia, a fim de vender as cópias. A relação não era um jornal, pois, embora tivesse atualidade, faltavam-lhe a periodicidade e a variedade de matéria. Em suma, a relação era uma notícia atual, mas avulsa.

Para torna-las sugestivas, diversificaram-se os assuntos, colocando-se várias notícias em cada publicação. Com as vendas aumentavam, passaram a edita-las com freqüência que acabaram por transforma-las em publicações periódicas. O tipógrafos, sem saber, começara a produzir o  jornal. Não tinha ele consciência de ter criado essa novidade fascinante, que hoje chamamos jornal impresso. Continuou por isso a denomina-las simplesmente relações. Para ele não passavam de relações, só que periódicas e variadas.

Quando isso aconteceu (no fim do século XVI e início do século XVII), as gazetas manuscritas não desapareceram. Pelo contrário, conviveram com o jornal impresso até o século XVII. Tinham sobre ele a vantagem da liberdade, pois a tipografia viveu, até a Revolução Francesa pelo menos, submetida em toda parte a um regime legal baseado na censura.

As gazetas manuscritas, embora nem sempre consentidas, escapavam aos rigores da lei com maior facilidade por serem feitas a mão. Um vidro de tinta e uma pena ocultavam-se mais cômoda a rapidamente do que uma tipografia. Por isso, abordavam certos temas vedados aos jornais impressos, principalmente assuntos internos dos países onde circulavam. Era a imprensa alternativa da época.


Os primeiros jornais

O primeiro jornal circulou em Anttuérpia, Bélgica  (1605), chamava-se NieuweTijdinghen. O segundo em Bremen, (1609). O terceiro, em Estrasburgo, no mesmo ano. O quarto, em Colônia, no ano seguinte. Todos na Alemanha. Dez anos depois, já havia jornaisem quase toda a Europa. A imprensa londrina começou em 1621, com a Current of General News. Paris esperou mais dez anos para ter sua Gazette.

Nos primeiros jornais, a notícia aparece como fator de acumulação de capital mercantil. Assim, uma região em seca, sob catástrofe, indica que certa produção não entrará no mercado e uma área extra de consumo será aberta, na reconstrução. No mesmo raciocínio, aguerra  significa que reis precisarão de armas e dinheiro; uma expedição a continentes remotos pode representar a possibilidade de mais pilhagens, de descobertas de novos produtos ou de terras próprias para a expansão de culturas lucrativas, como a cana-de-açúcar e o algodão.

Por outro lado, a burguesia tinha de lutar em outras frentes e logo usou os jornais na sua arrancada final sobre os palácios. A igreja e o Estado tentaram conter os impressos com o índex e a censura; mais tarde, os aristocratas lançavam seus próprios periódicos, sempre menos interessantes, porque, na guerra de opinião, não tinham muito o que dizer. Foram anos e anos de intensa luta política, em que a informação aparecia como tema da análise dos publicistas, da denúncia dos panfetários, do puxa-saquismo dos escritores cortesões.

O investimento para imprimir um jornal era pequeno, a redação se limitava a duas ou três pessoas, os leitores pagavam o preço do papel, da tinta e costumavam até prover o capital inicial, com a contratação de assinaturas. Do ponto de vista econômico, qualquer um podia lançar a sua folha,  desde  que tivesse algumas centenas de amigos. Nessas circunstâncias,os censores tinham o apoio  de muita gente influente, mesmo entre os burgueses, cujo ideário, por motivos políticos, incluía a liberdade de imprensa.

E foi assim que mesmo na Inglaterra pós-Cromwell ou na França pós-napoelônica,publicistas e planfetários viveram sob o jugo de tribunais e de sistemas sutis de controle:
cartas de monopólio, imposto do selo, taxação do papel, da publicidade. Embriagada com o poder, a nova classe dominante impunha brutal espoliação aos trabalhadores: jornadas de até 18 horas por dia sem descanso, para homens, mulheres e crianças, por salários que não davam para pagar  um pão. Um escândalo que comovia homens dignos, pensadores racionalistas, aristocratas remanescentes sempre dispostos a lembrar que a volta ao Antigo Regime poderia conter os abusos. Floresciam as idéias socialistas, que ganhariam rigor científico na obra de Karl Marx, ele próprio jornalista da  Gazeta Renana (Alemanha) e,depois, exilado em Londres, correspondente de jornais americanos.

O próprio impulso da Revolução Industrial terminou, porém, derrubando a censura, na maior parte da Europa Ocidental, na última  metade do século XIX. Três fatores contribuíram para isso:
a) o número de trabalhadores que aprendiam a ler – gente dos escritórios,operadores de máquinas, mestres de ofícios cada vez mais sofisticados – crescia sem parar, o que fez surgir um efetivo mercado de massa para os jornais;
b) as máquinas e a organização da produção próprios do capitalismo industrial chegavam aos jornais. A mecanização começou com a impressora de Koenig, em 1814, passou pela rotatividade de Marinoni, em 1867, e atingiu o auge  com a composição das linhas de chumbo na linotipo de Mergenthaler, em 1886. Com isso,o empreendimento jornalístico tornava-se empresarial: baixavam-se os custos por exemplar armavam-se redes imensas de coleta de informações. O jornalista independente de outrora, que pretendesse tirar sua folha com  tipos de móveis e prensa manual, jogaria  nas   ruas números insignificantes de exemplares,caríssimos, com o conteúdo superado pelos fatos;
c) a publicidade passava a custear a maior parte dos gastos editoriais. O público deveria ser informado da oferta de bens de consumo, convencido a consumir e,depois, induzido à compra por todo arsenal de instrumentos de intervenção psicológica que se pudesse utilizar. Obviamente essa promoção do consumo não se desprendia dos interesses gerais do sistema econômico.

O jornal-empresa pôde, assim, alcançar vasta gama de opiniões, mas seu caráter não-revolucionário esteve assegurado por dois motivos: remuneração do capital apreciável nele investido, e renda basicamente da veiculação de bens materiais e ideológicos produzidos por entidades de característica semelhante.

Cabe lembrar que o primeiro jornal diário produzido no mundo foi o Daily Courant,editado na Inglaterra para Elizabeth Mallet, a partir de 1702. Era modesto, pois cada exemplar era feito em uma só folha.


O jornalismo no Brasil

Desde de sua descoberta até 1808 o Brasil não teve nem prelos nem tipos, exceção feita aduas tentativas de implantação tipográfica, ocorridas no século XVIII, ambas proibidas pela Corte.

A primeira tentativa ocorreu em Recife. Da oficina ali instalada nada se sabe, nem o nome do tipógrafo, tampouco o que teria editado. A única menção dela restante está  contida na Carta Régia de 8 de junho de  1706, por meio da qual o governo português mandou fechá-la.

A segunda tentativa foi creditada a Antonio Isidoro da Fonseca. Em  1746, talvez fugindo de credores, esse impressor português atravessou o Atlântico e veio instalar-se no Rio de Janeiro. Imprimiu apenas quatro folhetos, até o dia 10 de maio de 1747, quando uma Ordem Régia, vinda de Lisboa,  determinou o confisco de seus tipos. Três anos depois, Isidoro tentou reinstalar-se no Brasil, requerendo licença ao Rei. A autorização foi negada. Na realidade, mais do que tipógrafo, essa licença foi negada ao Brasil. Afinal a política colonial portuguesa esta destinar à Colônia a função de apenas fornecer matérias-primas à Metrópole, recebendo manufaturados em troca.

Não interessava que governo português que o Brasil tivesse tipografia, pelo mesmo motivo que não lhe convinha que a Colônia tivesse qualquer tipo de indústria. Além do mais, o indígena brasileiro não chegava sequer a conhecer a escrita. Como atingi-lo com a letra de forma? O próprio colono, aliás, vivia em tamanha indigência de instrução que, até mesmo para ele, o livro seria um luxo aparentemente dispensável.

Em 1808, essa situação se transformou. Fugindo à invasão francesa, a corte portuguesa mudou-se para o Brasil. Elevado a Reino Unido, o Brasil recebeu os benefícios  de  inúmeras reformas. Dentre as novidades, uma foi a imprensa.

D. João VI insistiu, por Decreto de 13 de maio de 1808, a Impressão Régia no País. Dessa oficina  tipográfica oficial, surgiu o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro. O primeiro número saiu no dia 10 de setembro de 1808 e teve como redator Frei Tibúrcio José  da Rocha.

Muitos historiadores preferem fincar o marco oficial  de nosso jornalismo no Correio Braziliense ou Armazém  Literário , cujo  primeiro número é de julho de 1808. Embora redigido em português, o jornal era impresso em Londres, onde vivia  exilado, seu idealizador, Hipólito da Costa.

O primeiro jornal informativo do Brasil foi o Diário do Rio de Janeiro, em 1821, e as primeiras folhas essencialmente políticas foram o Reverbero Constitucional Fluminense e o Correio do Rio de Janeiro. Após a independência, a imprensa brasileira teve graves problemas com a censura. Desafiando as restrições, ainda circulavam jornais violentos, entre os quais o Typhis Pernambucano, de Frei Caneca. Em 1827, foi fundado o Jornal do Commércio, em circulação até hoje. Em 1831, o Brasil atingiu um bom estágio no jornalismo, com 54 periódicos circulando em todo o País. Muitos outros jornais vão surgindo e dão força à causa abolicionista, através de seus colaboradores, como Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio e Joaquim Serra.

Durante a República Velha, nos governos de Deodoro e Floriano, em repressão à imprensa foram fechados vários jornais em todo o País. O Jornal do Brasil, fundado em 1891 por Rodolfo Dantas, foi um deles e seu fechamento durou um ano.

Com a industrialização da imprensa no início do século XX, o volume de publicidade aumentou e o noticiário diversificou bastante: Em 1907, a Gazeta de Notícias imprimiu o primeiro clichê em cores. Em 1919, nasceu O Jornal, o órgão líder dos Diários Associados, que iniciou o processo da primeira grande  cadeia de jornais brasileiros. O Globo surgiu em 1925.

Durante o Estado Novo, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, passou a sujeitar a imprensa à rigorosa censura. Com isso, suspendeu 61  publicações, colocando inclusive O Estado de São Paulo sob intervenção por cinco anos.

Em 1966, foi criado o Jornal da Tarde (vespertino do Estadão),  que introduziu significativas inovações gráficas no Jornalismo. Três anos depois, surgiu o Pasquim, o marco da imprensa alternativa e dos semanários tipo tablóide. Em 1984, a Folha de São Paulo foi o primeiro jornal brasileiro  a entrar no processo de informatização das redações.

Sendo assim, a imprensa nasceu envolvida com dois grandes obstáculos  a seu desenvolvimento. Esses  obstáculos foram sempre de duas naturezas: aqueles que  estavam ligados  à ação das autoridades, a censura; e aqueles ligados às condições do meio social e político. No entanto, a imprensa surge quando a época e o lugar necessitam dela. Por muitas vezes, esses obstáculos se cruzam, caminham juntos ou são derrubados quando as condições do meio social assim o exigem. Sua linguagem, sempre adequada á época e a seus tipos de leitores, foi-se modificado bastante nos últimos anos. Ou melhor, foi-se popularizando. Hoje, para atingir a um maior número de leitores, os jornais, em geral,  adotam linguagem simples e prática.