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Jornalismo: linguagem da simplicidade - capítulo V

O processo de edição
“Os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau. Os extremos não se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados”.
Hermes

Para ser editado, um texto precisa ter no mínimo  de conteúdo – informações novas, pesquisa, fatos. A partir daí, é necessário que se tenha disposição para trabalhar e tornar a matéria interessante e bem escrita.

Muitas vezes, é necessário  editar textos de colaboradores fracos, mas que têm acesso a determinada fonte.  De repórteres que sabem apurar, mas que não possuem um bom texto final. De depoimentos preciosos, mas confusos e dispersos. Convém, então, limpar, polir e emoldurar as informações para que a qualidade especificada da matéria possa  brilhar  através  das construções malfeitas.


Ao editar um texto

Ao editar um texto, o bom editor deve levar em consideração algumas regras básicas:

  • Ler a matéria com cuidado, mais de uma vez, para perceber o que ela  tem de bom;
  • Destacar as informações da matéria -  dados  técnicos, informações dos especialistas, conclusões  do autor,  sugestões do problema – e dos depoimentos;
  • Definir, antes de escrever, o que vai ser aproveitado, o que vai ser modificado. Trabalhar o conteúdo,  antes de trabalhar a forma;
  • Transmitir informações com suas palavras, quando se trata de tradução. Traduções são feitas por tradutores. Os editores devem recriar o texto, usando a tradução como base.

Respeitar o estilo do autor

A uniformização dos textos não interessa ao bom  editor de jornal. No caso de um bom texto, apenas deve-se adequá-lo às necessidades de edição, sem  perder o sabor do original.


Escrever com clareza

Parece fácil, mas não é. Escrever de maneira clara é difícil e dá muito trabalho. Exige que as informações sejam  selecionadas, agrupadas , ordenadas, analisadas , elaboradas e comunicadas claramente.

Antes de se definir o que se quer dizer com a matéria (como um todo) e com cada parágrafo em particular, não se deve começar a escrever. Dificilmente, produz-se  um  texto claro dessa maneira. Escrever de maneira clara requer:
  • As informações, fatos,  reflexões, pontos de vista e conclusões, que ajudam o leitor a entender o assunto em questão, devem ser definidas de imediato pelo autor;
  • Convém que as informações sejam agrupadas. Quando abordar um aspecto do tema em questão,  o autor deve esgotar o assunto. Não se deve voltar a dar informações sobre determinado aspecto em outro lugar da matéria 

Fazer um roteiro

Antes de escrever, o autor deve preparar  um roteiro do que se pretende passar para o leito. Tal irá ajuda-lo bastante na elaboração do texto. Para isso, ele deve:
  • Preparar a abertura – o enfoque a ser dado à abertura deve ser escolhido e escrito com muito cuidado. É a partir dessa decisão que o leitor vai se sentir atraído – ou  não – para a leitura da matéria. A história, o fato ou a informação contidos na abertura devem representar de maneira forte  e clara o que se quer dizer com a matéria. As frases devem ser, de preferência, curtas e contundentes;
  • Situar a questão – Convém dar todas as informações atuais sobre o tema – o que está acontecendo, como é o comportamento hoje,  como era antigamente, os números existentes, os dados de pesquisa, os acontecimentos recentes ligados ao assunto, as notícias na imprensa;
  • Discutir a questão – Quem acha  o quê – quem é contra; quem é favor; as diferentes correntes de pensamento, de opinião, de estudos e de pesquisa;
  • Apresentar saídas -  Caminhos, sugestões e soluções,  no decorrer da matéria ou como itens isolados – mas sempre que possível;
  • Identificar as pessoas – As pessoas  devem ser identificadas assim que seus nomes aparecem  pela primeira vez. A identificação tem que ser completa, para que não se apresentem novos dados de identificação mais adiante  na matéria. Ex.: diz o doutor Carlos Alberto Gonçalves, diretor do Serviço de Pediatria do Hospital Pedro Ernesto, com experiência de dez anos de tratamento de poliomielite. 

Escrever de maneira objetiva
Escrever de maneira objetiva é simples. Basta:
  • Não sair do tema – O tema específico a que a matéria se propõe deve ser seguido à risca. Em outras palavras: o ponto de vista e o foco da questão precisam ficar sempre claros e vivos na mente do leitor. O tema, provavelmente, estará relacionados com o título e tudo na matéria – as histórias, o ponto de vista do autor, as informações de técnicos e de autoridades;
  • Valorizar o que é bom – Convém deixar de lado o que não serve. Muitas vezes é preciso encarar o texto de um jornalista pouco experiente ou de um outro que é famoso, mas não se fez o que se pediu. É fundamental saber distinguir o que interessa ao leitor, ter enorme respeito pelo que é bom  e coragem para descartar o que não é;
  • Ter coragem de cortar – A frase pode ser lida e brilhante, mas se não estiver funcionando, mas se não estiver funcionando como uma informação ou esclarecendo o assunto em questão, é bom usar caneta com rigor!;
  • Não deixar o leitor em suspense – Nunca se pode deixar de responder de imediato uma pergunta, levantando um assunto entre ela e a resposta. Evite usar "etc" ou "e assim por diante".

Escrever de maneira direta 

Para se escrever de maneira direta, o autor deve:
  • Dar preferência à afirmação direta em vez de dar voltas. Por isso é bom ser simples e dizer tudo diretamente. É mais forte e autêntico;
  • Fugir dos advérbios e locuções adverbiais, que podem simplesmente ser eliminados, como: entretanto, incidentalmente, no entanto, por exemplo;
  • Escrever com impacto. Todas as matérias devem possuir alguma coisa nova, um fato, uma análise, uma visão, uma constatação, uma descoberta. Essa novidade tem que ser evidenciada na edição – no título, no olho, na abertura, na estrutura da matéria. Não pode ficar perdida;
  • Evitar detalhes da biografia de pessoa desconhecida. Nas matérias sobre a carreira profissional ou o comportamento, convém incluir o mínimo de fatos sobre o tempo de escola e problemas de infância da pessoa e concentrar-se na situação de vida que a levou a ser notícia. Mesmo no caso de celebridades, fatos antigos interessam menos que fatos recentes. A notícia vive da novidade. Quando tiver de cortas textos, dê prioridades às partes históricas;
  • Não desperdiçar espaço. Não se deve dizer em duas laudas o que se pode dizer em uma. Não se deve escrever em dois parágrafos o que pode ser escrito em apenas um. A imprensa de hoje vive da objetividade;
  • Escrever com intimidade. Convém dirigir-se sempre ao leitor. O texto deve falar com a pessoa que está lendo a matéria;
  • Tentar fazer as pessoas falarem informalmente, nas citações. A linguagem deve ser a que as pessoas usam quando conversam e não quando escrevem;
  • Escrever com respeito. Não confundir clareza com linguagem infantil. Escrever claro é transmitir claramente  o que se quer dizer. Isto nada tem a ver com baixar o nível de informação para chegar mais perto do nível do leitor. O autor não deve colocar-se na posição de mais inteligente que os seus leitores. Certamente, entre eles encontram-se pessoas com nível de informação e cultura maior que o dele. Portanto, o nível de informação deve ser o mais alto possível. Por outro lado, a forma de transmitir tudo isso deve ser a mais simples e direta;
  • Escrever com elegância. Não usar a mesma palavra muitas vezes em uma frase ou parágrafo. Isto vale para pronomes, conjunções e artigos também. Não convém empregar gíria.
O mais importante é sempre ter em mente que o jornalismo requer demais do ser humano.,  em todos os sentidos. Não se pode ser jornalista por apenas 7 horas diárias. Ser jornalista é estar permanentemente em estado de alerta, participar ativamente de sua época. É, acima de tudo saber ouvir e narrar o que viu, dominar o idioma, ter conhecimentos técnicos, sensibilidade e segurança para decifrar e avaliar o material a ser publicado.


Títulos e formas intermediárias

Título é por definição, a palavra ou frase, geralmente composta em corpo maior do que o utilizado no texto e situada com destaque no alto da notícia, artigo, seção, quadro etc., para indicar resumidamente o assunto da matéria e chamar a atenção do leitor para o texto.

Títulos contados
São aqueles cujas as palavras se ajustam em determinados espaços ou colunas do veículo. Para escrever o título contado, o redator precisa acertar, numericamente, com as letras, combinando-as no espaço (colunas) previamente determinado.

Título livre
É aquele que pode ser redigido à vontade, em quantas linhas o redator desejar, obedecendo somente ao número de colunas, e às vezes, as quantidade de linhas, nunca ao número de palavras.

As formas intermediárias são:
  • Antetítulo – palavra ou frase em corpo menor do que o utilizado e colocada (geralmente acima) dele,  para introduzi-lo, indicar o assunto ou pessoa nele focalizada, ou localizar aposição geográfica e temporal. Diz-se também sobretítulo ou olho;
  • Entretítulo – cada um dos títulos que subdividem um texto extenso, (notícia, artigo, entrevista...). A divisão da matéria em vários trechos destacados por entretítulos é um recurso gráfico-visual destinado a tornar o texto mais atraente, menos cansativo e mais fácil de se ler;
  • Subtítulo – título secundário colocado imediatamente após o título principal de uma matéria jornalística. É composto usualmente, em letras grandes, mas sempre menores que os caracteres usados no título. Serve para destacar algum detalhe que completa o sentido do título e segue, geralmente as mesmas normas de redação deste.

Redação de títulos

O título é o anúncio da notícia. Revela ao leitor o assunto de cada matéria e serve para melhorar o visual  da página impressa. O bom título, aquele bem redigido, força a ação,desperta o interesse e conduz o leitor diretamente à notícia, sem esforço algum. O bom título responde às seguintes especificações:
a) dá idéia clara da notícia que transmite. Às vezes, é a própria notícia;
b) contém um verbo (geralmente de ação), sujeito e predicado;
c) não repete palavras, não provoca cacófatos.

O título, muitas vezes, não está contido na cabeça ou lide. Pode ser encontrado em qualquer parte da matéria. A dificuldade para se redigir um bom título reside na maior ou menor quantidade de dados existentes na cabeça e corpo da matéria. Ao ler a notícia, o redator separa os detalhes menos interessantes dos fatos principais e com estes procura escrever o título. O método é da exclusão dos detalhes menores.

Um bom exercício para redigir títulos é recortar notícias dos jornais ou revistas, retirar os respectivos títulos  e  tentar dar-lhes novos, para depois comparar com os originais. Os títulos são estudados quanto:
  • À função -  anunciar, resumir, embelezar;
  • À formulação – princípio a que se destinam aspectos gráficos – variedade de letras (tipos e corpos);
  • Às formas intermediárias – antetítulo, subtítulo e entretítulo.
Concluindo: para o redator escrever  bons títulos, são necessários amplos conhecimentos do idioma, agilidade mental e muita prática.


A primeira página

A primeira página do jornal é uma espécie de vitrine que vai atrair o leitor para a qualidade da mercadoria que irá consumir, ou seja, é através da chamada que o jornal poderá despertar maior ou menor interesse para seu conteúdo interno, começando pela manchete.

O título forte é empregado para destacar matérias que tenham penetração junto ao público leitor do veículo. Em geral, ressalta-se esse título não apenas pela maior objetividade e impacto, como também pelo emprego de tipo próprio, diferente dos demais.

O título comum é empregado no noticiário de fatos  rotineiros ou daqueles de menos peso.

A chamada é o destaque objetivo e conciso dos aspectos mais importantes e atraentes de uma matéria contida no corpo do jornal, publicada na primeira página como forma de atrair o interesse do leitor, não só para a compra do jornal, mas para a leitura do texto interno.

Para tanto, é necessário se ter noções básicas de edição. Neste caso, será exigido do profissional responsável que as matérias, depois de selecionadas para a publicação, sejam,também colocadas nas páginas seguindo-se um critério de valores decrescentes. As matérias mais importantes devem ficar ao alto e de preferência abertas horizontalmente e as menos importantes colocadas abaixo na mesma ordem de valores, com o destaque compatível. Os critérios seletivos da matéria são:
a) proximidade no tempo;
b) proximidade no espaço;
c) número e importância das pessoas envolvidas;
d) valor material e/ou ideológico.

Exemplo de manchete:
Efeito Hong Kong se alastra e pára negócios em Wall Street
Queda em Nova Iorque é maior da história. Em Tóquio, hoje a bolsa abriu em baixa de 1,5%A queda na bolsa de Hong Kong (-5,8%) provocou ontem, nova onda de pânico nos principais mercados  mundiais, incluindo baixa recorde em pontos do Índice  Dow Jones, de Wall Street  (7,1%). O índice perdeu 554 pontos, superando os 508 registrados na "segunda-feira negra" de outubro de 1987. Os negócios nas bolsas de Nova Iorque e Chicago chegaram a ser suspensos pela primeira vez desde que os limites de baixa foram impostos,justamente para evitar uma quebra (crash) como a de 10 anos atrás. Segundo a agência de notícias AP, os prejuízos chegaram a US$ 600 bilhões no mercado americano. Na Europa,as bolsas fecharam na média de –3%. A terça-feira  não promete tréguas: a Bolsa de Tóquio abriu, hoje, em queda de 1,5% os primeiros 30 minutos de operação (Páginas 136,14 e 15).
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro 28 de out. de 1997, Capa.